quinta-feira, 22 de outubro de 2026
Cidades

Emissões locais e transporte regional dividem investigação sobre a fumaça em Manaus

A redução de focos de calor no Amazonas entre agosto e setembro de 2026 não ocorreu de maneira uniforme. Enquanto municípios do sul registraram recuos, localidades próximas de Manaus e do setor leste tiveram aumento. A combinação entre esses dados e mapas meteorológicos sustenta hipóteses sobre a fumaça, mas não identifica sozinha a origem das partículas.
fumacaemmanaus

A investigação sobre a fumaça em Manaus reúne duas possibilidades que precisam ser analisadas separadamente: a contribuição de queimadas dentro ou próximas da capital e o transporte de partículas produzidas em outras áreas do Amazonas. Um levantamento da NEX Hub de Análises Estratégicas registrou queda de 26,9% nos focos de calor do Estado entre agosto e setembro de 2026, na comparação com os mesmos meses de 2023. Ao mesmo tempo, municípios do entorno de Manaus e do setor leste apresentaram aumento nas detecções.

O contraste muda a leitura do resultado estadual. A redução geral foi influenciada principalmente pelo recuo em municípios do sul, mas não significa que todas as regiões tenham seguido a mesma tendência. Em áreas próximas da capital, os focos cresceram, e mapas meteorológicos mostram uma orientação dos ventos compatível com possíveis corredores de transporte de ar em direção à região de Manaus.

Essa combinação sustenta uma hipótese sobre a circulação da fumaça, mas não comprova a origem das partículas. As imagens analisadas não permitem estabelecer, sozinhas, o sentido efetivo do deslocamento nem confirmar que os focos registrados em determinado município tenham alcançado a capital.

Queda estadual esconde diferenças entre os municípios

O estudo contabilizou 65.610 focos de calor no Amazonas em agosto e setembro de 2026, contra 89.758 no mesmo período de 2023. A diferença foi de 24.148 detecções a menos. Os dados foram obtidos no Painel do Fogo do Sistema de Proteção da Amazônia (SIPAM), com informações territoriais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Apesar do recuo no total, 16 dos 62 municípios amazonenses tiveram crescimento. Entre eles estão Manacapuru, Iranduba, Itacoatiara, Rio Preto da Eva, Careiro e Manaquiri. A própria Manaus passou de 490 para 557 focos, alta de 13,7% no intervalo analisado.

Na região intermediária de Manaus, divisão territorial do IBGE que abrange uma área mais ampla que o entorno imediato da capital, o número subiu de 18.231 para 18.980 focos, crescimento de 4,1%. Na região intermediária de Parintins, a alta foi de 10.290 para 10.686 detecções, ou 3,8%.

Os números mostram que o comportamento das queimadas foi diferente entre as regiões do Estado. Uma queda expressiva em municípios distantes pode reduzir a soma estadual sem impedir episódios de fumaça em Manaus. Da mesma forma, o crescimento de focos em áreas próximas pode ampliar o potencial de contribuição local quando a circulação atmosférica favorece o deslocamento das partículas.

Manacapuru e Iranduba tiveram as maiores altas percentuais

Manacapuru apresentou o maior aumento absoluto entre os municípios incluídos no levantamento. Foram 2.730 focos em agosto e setembro de 2026, ante 1.230 em 2023. O acréscimo foi de 1.500 detecções, equivalente a 122%.

Iranduba registrou a maior variação percentual. O município passou de 192 para 657 focos, alta de 242,2%. Em Caapiranga, os registros subiram de 946 para 2.248, aumento de 137,6%.

Também houve crescimento em áreas consideradas relevantes para a análise de possíveis contribuições à fumaça na capital. Itacoatiara passou de 1.710 para 1.962 focos, alta de 14,7%. Careiro teve aumento de 1.236 para 1.442 detecções, ou 16,7%, enquanto Manaquiri passou de 1.247 para 1.328, crescimento de 6,5%.

Rio Preto da Eva registrou alta de 241 para 327 focos, equivalente a 35,7%. Nova Olinda do Norte passou de 992 para 1.282, aumento de 29,2%. Em Borba, os registros subiram de 1.550 para 1.771, ou 14,3%. Urucurituba teve crescimento de 457 para 1.192 focos, alta de 160,8%.

Setor leste aparece como área de acompanhamento

As imagens do Windy analisadas pela NEX mostram traços de circulação atmosférica no corredor entre Parintins, a região de Urucará, Itacoatiara e Manaus. A orientação observada é aproximadamente de leste-nordeste para oeste-sudoeste.

Esse alinhamento é compatível com uma possível circulação de ar do setor leste em direção à região da capital. Caso as partículas estejam se deslocando para oeste ou oeste-sudoeste, a fumaça de queimadas localizadas nesse corredor poderá ser transportada até Manaus.

Itacoatiara ganha relevância nessa leitura por estar a leste da capital e ter registrado 252 focos a mais no bimestre de 2026. Outros municípios do setor também tiveram aumento. Em Urucurituba, a alta foi de 160,8%. Boa Vista do Ramos passou de 690 para 1.022 focos, crescimento de 48,1%.

Esses dados indicam áreas que podem ser acompanhadas em uma investigação sobre a origem da fumaça. Eles, no entanto, não demonstram que as partículas produzidas nesses municípios chegaram a Manaus. A confirmação dependeria da observação do sentido efetivo dos ventos, da trajetória das plumas e das condições atmosféricas no momento das queimadas.

Possível contribuição pelo sudeste depende do fluxo de ar

O setor entre Borba e Itacoatiara também aparece na análise. Os mapas apresentam traços em orientação diagonal e, se o deslocamento ocorrer do sudeste para o noroeste, o fluxo poderá favorecer a aproximação de ar proveniente de áreas situadas a sudeste de Manaus.

Borba teve aumento de 1.550 para 1.771 focos, enquanto Nova Olinda do Norte passou de 992 para 1.282. Por isso, os dois municípios são considerados relevantes para o acompanhamento dessa possibilidade.

Autazes e Careiro da Várzea, também localizados em uma área importante para a avaliação geográfica do setor sudeste, registraram queda. Autazes passou de 4.372 para 2.829 focos, recuo de 35,3%. Careiro da Várzea caiu de 1.603 para 1.428, baixa de 10,9%.

A redução não elimina a possibilidade de contribuição desses municípios em episódios específicos. Os dois mantiveram quantidade significativa de registros, e o transporte da fumaça depende da configuração atmosférica no período em que os incêndios ocorrem. Careiro da Várzea apresentou a maior densidade de focos por área municipal no levantamento de 2026, com 543,5 detecções por 1.000 quilômetros quadrados.

Áreas a oeste exigem outra configuração dos ventos

O crescimento registrado em Iranduba, Manacapuru e Caapiranga precisa ser interpretado considerando a posição desses municípios em relação a Manaus. Eles estão em setores a oeste e sudoeste da capital.

Para que a fumaça dessas áreas alcance Manaus, seria necessário que o fluxo de ar viesse desses setores ou que as trajetórias atmosféricas levassem as partículas até a cidade. O alinhamento identificado no corredor leste, portanto, não explica sozinho uma eventual contribuição de Manacapuru ou Iranduba.

A distinção é importante porque os dados cumprem funções diferentes. Os registros de satélite mostram onde os focos cresceram ou diminuíram. Os mapas meteorológicos ajudam a avaliar em quais condições a fumaça poderia se deslocar. Nenhuma das duas informações, isoladamente, define a origem de um episódio observado na capital.

Histórico indica predominância de ventos de leste e nordeste

Um estudo apresentado no Congresso Técnico Científico da Engenharia e da Agronomia, com dados da estação automática do Instituto Nacional de Meteorologia em Manaus entre 2012 e 2019, identificou predominância de ventos de leste e nordeste nos períodos seco e chuvoso.

Na meteorologia, a direção indica de onde o vento vem. Assim, um vento de leste se desloca do leste para o oeste. Esse padrão histórico torna plausível a observação de municípios localizados nos setores leste e nordeste como possíveis áreas de contribuição para a fumaça em Manaus.

O comportamento, porém, não é constante. Chuvas, mudanças na circulação regional, brisas fluviais e diferenças entre os ventos próximos à superfície e os registrados em níveis mais altos podem modificar o transporte do ar. Por isso, o padrão histórico não substitui a análise das condições específicas de cada episódio.

Imagens estáticas não confirmam a trajetória da fumaça

As capturas do Windy utilizadas no levantamento mostram diferentes camadas meteorológicas. A primeira está na camada de temperatura, enquanto a segunda apresenta acumulação de vento. As cores exibidas não representam concentração de fumaça nem qualidade do ar.

Na segunda imagem, o indicador de 18 nós, equivalente a aproximadamente 33 quilômetros por hora, refere-se ao ponto e à camada selecionados. O valor não deve ser interpretado como a velocidade atual do vento em Manaus.

Os traços brancos permitem observar o alinhamento do fluxo, mas uma captura estática não mostra com segurança para qual direção as partículas estão se deslocando. As imagens também não apresentam indicação legível de data, horário e configuração completa da previsão.

Além disso, os mapas meteorológicos não demonstram, por si só, que o fluxo representado correspondia às condições existentes nos locais e nos horários dos incêndios registrados em agosto e setembro de 2026.

Recuo no sul puxou o resultado do Amazonas

A queda estadual foi influenciada por municípios do sul que tinham grande quantidade de detecções em 2023. Lábrea passou de 10.486 para 4.094 focos, recuo de 61%. Em Humaitá, os registros caíram de 5.314 para 1.530, baixa de 71,2%.

Canutama passou de 3.644 para 1.013 focos, redução de 72,2%. Boca do Acre teve queda de 5.080 para 2.107, ou 58,5%. Também houve recuos em Novo Aripuanã, de 23,7%, Manicoré, de 46,6%, e Tapauá, de 68,9%.

Apuí seguiu em sentido contrário e registrou o maior total do Estado no bimestre de 2026. O município passou de 10.342 para 11.033 focos, aumento de 6,7%.

Comparação não inclui outubro de 2026

O levantamento compara apenas agosto e setembro de 2023 com os mesmos meses de 2026. Os dados de outubro de 2026 ainda não estavam disponíveis no material, o que impede a comparação entre trimestres completos.

Em 2023, outubro acrescentou 31.782 focos. Com isso, o período de agosto a outubro chegou a 121.540 detecções, e o mês respondeu por aproximadamente 26,1% do trimestre.

A análise contextualiza 2023 como um período marcado por El Niño e seca severa. A comparação apresentada mede a variação das detecções, mas não determina isoladamente a participação de fatores climáticos ou de ações de prevenção e combate.

Foco de calor não equivale a incêndio individual

A metodologia soma detecções feitas por satélite e organizadas por município a partir do Painel do Fogo do SIPAM. As informações territoriais do IBGE foram usadas para calcular a densidade por 1.000 quilômetros quadrados.

Um foco de calor não corresponde necessariamente a um incêndio individual. Uma mesma ocorrência pode gerar várias detecções, e o indicador não mede diretamente a área queimada nem o volume de fumaça produzido.

O cruzamento dos dados permite afirmar que houve aumento de focos em parte do entorno e dos setores leste e sudeste de Manaus, enquanto o total estadual caiu. Também sustenta a possibilidade de contribuição dessas áreas para episódios de fumaça quando os ventos favorecem o transporte até a capital.

Para identificar quais municípios contribuíram em cada ocorrência, será necessário combinar a localização e o horário das detecções com imagens das plumas de fumaça e trajetórias do ar em diferentes altitudes. Até essa integração, a origem da fumaça permanece como uma hipótese a ser examinada a partir de emissões locais e do transporte regional.